Allan Kardec
 
O laço estabelecido por uma religião, seja qual for o seu objetivo, é essencialmente moral, liga os pensamentos, identifca os corações, as aspirações, e não somente os compromissos materiais, que se rompem à vontade, ou à realização de fórmulas que falam mais aos olhos do que ao espírito.O efeito desse laço moral é o de estabelecer entre os que ele une, a fraternidade e a solidariedade, a indulgência e a benevolência mútuas. É nesse sentido que também se diz: a religião da amizade, a religião da família.

Se é assim, perguntarão: então o Espiritismo é uma religião? Ora, sim, sem dúvida, senhores! No sentido flosófco, o Espiritismo é uma religião, e nós nos vangloriamos por isto, porque é a doutrina que funda os vínculos da fraternidade e da comunhão de pensamentos, não sobre uma simples convenção, mas sobre bases mais sólidas: as próprias Leis da Natureza.

Por que, então, temos declarado que o Espiritismo não é uma religião? Em razão de não haver senão uma palavra para exprimir duas ideias diferentes, e que, na opinião geral, a palavra religião é inseparável da de culto; porque desperta exclusivamente uma ideia de  forma, que o Espiritismo não tem. Se o Espiritismo se dissesse uma religião, o público não veria aí mais que uma nova edição, uma variante, se se quiser, dos princípios absolutos em matéria de fé; uma casta sacerdotal com seu cortejo de hierarquias, de cerimônias e de privilégios; não o separaria das ideias de misticismo e dos abusos contra os quais tantas vezes a opinião se levantou.

Não tendo o Espiritismo nenhum dos caracteres de uma religião, na acepção usual da palavra, não podia nem devia enfeitar-se com um título sobre cujo valor inevitavelmente se teria equivocado. Eis por que simplesmente se diz: doutrina filosófica e moral.
 

N.R.: KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos. ano 11, n. 12, dez. 1868. Sessão anual  comemorativa do dia dos mortos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 2. reimp. Brasília: FEB, 2010. p. 490 e 491.  Transcrição parcial.)

Texto retirado da revista Reformador – Agosto de 2018, página 33.