O complexo de Édipo foi um conceito criado por Freud, onde influenciado em suas observações e pesquisas pela tragédia do Édipo Rei, de Sófocles; acreditava que o poder duradouro do drama decorria do nosso reconhecimento inconsciente de que a história do Édipo é a nossa história, de que a maldição lançada sobre ele antes de seu nascimento também fora lançada sobre nós. Nesta peça Édipo, sem saber que Jocasta é sua mãe, se casa com ela, após assassinar o próprio pai, Laio, inconsciente do parentesco entre ambos. Ao descobrir a verdade, ele cega a si mesmo enquanto a mãe se suicida.

Este conceito essencial e universal da psicanálise desperta na criança sentimentos opostos, de amor e ódio, direcionados para aqueles que lhe são mais próximos, os pais. Isto ocorre quando ela atravessa a fase fálica, e se conscientiza da diversidade entre os sexos. Normalmente ela se sente atraída, então, pelo sexo oposto, escolhido no ambiente que lhe é próprio, o familiar. Este complexo tem início quando o bebê, habituado a receber total atenção e proteção, ao atingir cerca de três anos de idade, passa a ser alvo de várias proibições que são para ele desconhecidas. Agora a criança já não pode fazer o que bem entende, não pode mais compartilhar o tempo todo o leito dos pais, deve evitar andar nu à vontade, como antes, entre outras interdições. Em extensão crescente, o complexo de Édipo revela sua importância como o fenômeno central do período sexual da primeira infância. A partir do declínio do complexo de Édipo é que ocorre a formação do superego, ou seja, a partir do momento que a criança passa a ser interditada tendo que internalizar as regras, normas e valores. Segundo Freud, o superego é herdeiro do complexo de Édipo; é um processo identificatório com a lei, da qual o pai é o representante. Romper a fantasia de um amor com a mãe para o menino lhe garante uma formação da moral e uma identificação com os seus pais. A troca é muito válida, afinal é a partir da formação do superego que os valores morais dos pais também são incorporados nesse processo.

Na dissolução do complexo de Édipo, as quatro tendências em que ele consiste agrupar-se-ão de maneira a produzir uma identificação paterna e uma identificação materna. A identificação paterna preservará a relação de objeto com a mãe, que pertencia ao complexo positivo e, ao mesmo tempo, substituirá a relação de objeto com o pai, que pertencia ao complexo invertido; ao mesmo tempo será verdade, quanto à identificação materna. A intensidade relativa das duas identificações em qualquer indivíduo refletirá a preponderância nele de uma ou outra das duas disposições sexuais.

O amplo resultado geral da fase sexual denominada pelo complexo de Édipo pode, portanto, ser tomada como sendo a formação de um perceptivo no ego, consistente dessas duas identificações unidas uma com a outra de alguma maneira. Essa modificação do ego retém a sua posição especial; ela se confronta com os outros conteúdos do ego com um ideal do ego ou superego. O superego, contudo, não é simplesmente um resíduo das primitivas escolhas objetais do id; ele também representa uma formação reativa enérgica contra essas escolhas (Edição Standard Brasileira, Vol. XIX, págs. 48 e 49, IMAGO Editora).

Tamanha importância deva ser dada ao complexo de Édipo por ser um fenômeno importante na constituição do período sexual da primeira infância, fase fálica. Aqui é que a resolução do complexo de Édipo começa. Após isso, se efetua sua dissolução, ele sucumbe à regressão, e é seguido pelo período de latência. Nessa fase de latência, os impulsos eróticos da fase fálica são recalcados juntamente com o complexo de Édipo. A menina gosta de considerar-se como aquilo que seu pai ama acima de tudo o mais; o menino encara a mãe como sua propriedade, até o que é interditado pelo pai, onde lhe é dito que a mãe não pertence a ele e sim ao pai. Tal como coloquei nos exemplos, a ausência da satisfação desejada, tal como ocorria quando ainda era bebê, o complexo de Édipo caminha para a sua dissolução; essa castração levara-lo ao insucesso da satisfação. Essa ameaça de castração o que ocasiona a destruição da organização genital fálica da criança. Não existe, porém, prova que, ao efetuar-se a ameaça de castração, essas experiências tenham qualquer efeito. Somente quando uma nova experiência lhe surge no caminho, que a criança começa a avaliar a possibilidade de ser castrada. A observação que finalmente rompe sua descrença é a visão dos órgãos genitais femininos. Mais cedo o mais tarde a criança, que tanto orgulho tem da posse de um pênis, tem uma visão da região genital de uma menina e não pode deixar de convencer-se da ausência de um pênis numa criatura assim semelhante a ela própria. Com isso, a perda de seu próprio pênis fica imaginável e a ameaça de castração ganha efeito adiado. A criança está na atitude edipiana com os pais; sua masturbação constitui apenas uma descarga genital da excitação sexual pertinente ao complexo; a masturbação de modo algum representa a totalidade de sua vida sexual, e durante todos os seus anos posteriores, deverá sua importância a esse relacionamento. Se a satisfação do amor no campo do complexo de Édipo deve custar à criança o pênis, está fadado a surgir um conflito entre seu interesse narcísico nessa parte de seu corpo e a catexia libidinal de seus objetos parentais.

Nesse conflito, triunfa normalmente a primeira dessas forças: o ego da criança volta às costas ao complexo de Édipo. As catexias de objeto são abandonadas e substituídas por identificações. A autoridade do pai ou dos pais é introjetada no ego e aí forma o núcleo do superego, que assume a severidade do pai e perpetua a proibição desde contra o incesto, defendendo assim o ego do retorno da catexia libidinal. As tendências libidinais pertencentes ao complexo de Édipo são em parte dessexualizadas e sublimadas em parte são inibidas em seu objetivo e transformadas em impulsos de afeição. Todo o processo, por um lado, preservou o órgão genital – afastou o perigo ou perda – e, por outro, paralisou-o – removeu sua função. Esse processo introduz o período de latência, que agora interrompe o desenvolvimento sexual na criança.

A observação analítica capacita-nos a identificar ou adivinhar essas vinculações entre a organização fálica, o complexo de Édipo, a ameaça de castração, a formação do superego e o período de latência. Essas vinculações justificam a afirmação de que a destruição do complexo de Édipo é ocasionada pela ameaça de castração.

A dissolução do complexo de Édipo nas meninas se pela exigência de direitos iguais para os sexos não nos leva muito longe, pois a distinção morfológica está fadada a encontrar expressão em diferenças de desenvolvimento psíquico. O clitóris na menina inicialmente comporta-se exatamente como um pênis, porém quando ela efetua uma comparação com um companheiro de brinquedos do outro sexo, percebe que “se saiu mal” e sente isso como uma injustiça feita a ela e como fundamento de inferioridade. Uma criança do sexo feminino, contudo, não entende sua falta de pênis como sendo um caráter sexual; explica-a presumindo que, em alguma época anterior, possuíra um órgão igualmente grande e depois o perdera por castração. Ela parece não entende essa inferência de si própria para outras mulheres adultas, e sim, inteiramente segundo as linhas da fase fálica, encará-las como possuindo grandes órgãos genitais – isto é, masculinos. Dá-se assim a diferença essencial de que a menina aceita a castração como um fato consumado, ao passo que o menino teme a possibilidade de sua ocorrência.

O complexo de Édipo na menina é muito mais simples que o do pequeno portador do pênis. A renúncia ao pênis não é tolerada pela menina sem alguma tentativa de compensação. Ela desliza do pênis para um bebê. Seu complexo culmina em um desejo, mantido por muito tempo, de receber do pai um bebê como presente – dar-lhe um filho. Tem-se a impressão de que o complexo de Édipo é então gradativamente abandonado de vez que esse desejo jamais se realiza. Os dois desejos – possuir um pênis e um filho – permanecem fortemente catequizados no inconsciente.

Referência bibliográfica

Kahn, Michael. Freud Básico – Pensamentos Psicanalíticos para o Século XXI.